Sem ter como voltar pra casa, tripulantes ucranianos não conseguem desembarcar no Brasil

Navio PORT OSAKA – Foto: Reprodução – Jose Aurelio / Marine Traffic


Enquanto a invasão russa continua, vamos tentando avaliar os impactos da guerra na indústria do transporte marítimo internacional. Os principais armadores de navios porta containers já anunciaram a suspensão das operações de suas embarcações nos portos da Ucrânia e da Rússia.

Um outro setor impactado pela crise é o das tripulações. Já há até o registro de uma ocorrência aqui no Brasil, a bordo do navio graneleiro PORT OSAKA: com o fim de seus contratos de trabalho e a necessidade de troca de turma, quatro tripulantes ucranianos deveriam desembarcar durante a operação do navio na baixada santista no último fim de semana.

Eles seriam substituídos por outros quatro tripulantes – também ucranianos. Porém, essa troca não pôde ser realizada.

Quem nos relatou o caso foi Leonardo Brunelli, CEO da 7Shipping, empresa especializada em efetuar as operações de troca de tripulação nos navios. A história também repercutiu no jornal A Tribuna, de Santos.

Os quatro tripulantes que estavam a bordo do graneleiro não desembarcaram por não terem como voltar para casa, já que a ponte aérea Brasil-Ucrânia está fechada.

Somado a isso, os quatro tripulantes ucranianos que viriam substituir a equipe no porto paulista nem chegaram a sair da Ucrânia pelo mesmo motivo: não conseguiram sair do país.

“As tripulações ucranianas que ainda estão na Ucrânia não podem embarcar em seus navios. E, atualmente, homens entre 18 e 60 anos não estão autorizados a sair do país – por questões militares”, diz Leonardo.

A Lei Marcial implementada na Ucrânia após a invasão russa proíbe que homens ucranianos e naturalizados deixem o país enquanto esta estiver em vigência – aqui tem uma matéria do G1 explicando melhor o assunto.

“As empresas responsáveis pela contratação e gerenciamento de tripulantes no mundo todo deverão oferecer marítimos de outra nacionalidade para a realização dos planos de contingência operacional dos navios”, afirma Leonardo.

“Além disso, acreditamos que os armadores deverão manter os tripulantes russos e ucranianos a bordo por mais tempo, assim como ocorreu no auge da pandemia. Principalmente devido ao fato de os aeroportos da Ucrânia permanecerem fechados.”

Atualmente, de acordo com informações da International Chamber of Shipping, são quase 1,9 milhão de trabalhadores marítimos em uma frota de mais de 74 mil navios mercantes em todo o planeta. Deste total, 4% são de marítimos ucranianos. É de se imaginar que, em outros portos do Brasil e do mundo, outros tripulantes ucranianos também possam estar enfrentando problemas semelhantes.

Outros 10,5% do contingente global são de marítimos russos – e estes também podem ser afetados da mesma maneira, já que diversas companhias aéreas estão deixando de aterrissar em aeroportos da Rússia.

Tudo isso vem acrescentar um peso ainda maior em cima da categoria, que já anda bastante pressionada: desde o início da pandemia, as trocas de tripulação nos portos de todo o mundo têm esbarrado em dificuldades durante o desembarque dos marítimos – como a necessidade de realizar quarentena, as restrições de movimentação e a compatibilidade da vacina com os imunizantes aceitos em cada país, entre outros problemas.

Some a isso o desgaste emocional de quem fica meses seguidos trabalhando em alto-mar. E, no caso dos ucranianos, a ideia de que tem uma guerra acontecendo em casa.


Fontes: A Tribuna, G1, International Chamber of Shipping, Business Insider

Posts anteriores sobre o assunto:
1º/03: Armadores suspendem operações de seus navios na Rússia
24/02: MSC, Maersk e Hapag-Lloyd suspendem atracações na Ucrânia

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